24 julho 2025

07 - Os Padres Apostólicos - Pápias de Hierápolis

Pápias de Hierápolis

Bispo de Hierápolis no início do século II, 

discípulo de João e contemporâneo de Policarpo de Esmirna,

um dos primeiros autores cristãos a registrar tradições orais 

sobre os evangelhos e os apóstolos. Conhecido por sua obra

 Explicação dos ditos do Senhor (λογίων κυριακν ξήγησις

de grande valor  histórico e teológico.

1. Contexto histórico em que viveu 

Pápias viveu entre o final do século I e meados do século II (c. 70–140 d.C.), em um período de transição entre os apóstolos e os primeiros líderes da Igreja. Era uma época marcada pela consolidação das comunidades cristãs, perseguições esporádicas e o início da sistematização da doutrina cristã. Ele viveu na cidade de Hierápolis, na Frígia (atual Pamukkale, Turquia), uma região influenciada pela cultura greco-romana e pelo judaísmo helenizado.

• Principais eventos e realizações em sua vida

Foi bispo de Hierápolis e é considerado um dos Padres Apostólicos, ou seja, líderes cristãos que tiveram contato direto com os apóstolos ou seus discípulos. Segundo Irineu de Lião, Pápias foi discípulo de João, o Apóstolo, embora Eusébio de Cesareia afirme que ele teria sido discípulo de João, o Presbítero. 

1.1. Trajetória Dentro da Igreja

• Pápias exerceu o episcopado em Hierápolis, sendo uma figura de autoridade espiritual e teológica em sua comunidade.

• Sua principal contribuição foi a preservação de tradições orais sobre os ensinamentos de Jesus e dos apóstolos, que ele considerava mais confiáveis do que os escritos disponíveis na época.

1.2. Temas abordados e sua relevância teológica

Sua única obra conhecida é a “Explicação dos ditos do Senhor", escrita em cinco volumes. Infelizmente, a obra completa se perdeu, restando apenas fragmentos preservados por autores como Irineu e Eusébio.

1. Valorização da Tradição Oral

Pápias acreditava que os ensinamentos transmitidos oralmente pelos discípulos dos apóstolos eram mais confiáveis do que os escritos. Ele buscava ouvir diretamente os “anciãos” que haviam convivido com os apóstolos, valorizando a “voz viva” da tradição.

“Não hesitarei em registrar para ti, junto com as interpretações, tudo o que aprendi cuidadosamente dos presbíteros e guardei cuidadosamente na memória.” (Fragmento citado por Eusébio).


2. Testemunhos sobre os Evangelhos
Pápias é uma das primeiras fontes a comentar sobre a origem dos evangelhos:
  • Evangelho de Marcos: Segundo ele, Marcos foi intérprete de Pedro e escreveu com exatidão tudo o que lembrava, embora não em ordem cronológica.
  •  Evangelho de Mateus: Teria sido escrito “em língua hebraica” (ou aramaica), e cada um o interpretava como podia.
Esses testemunhos são importantes para os estudos sobre a formação do Novo Testamento.

3. Crença no Milenarismo

Pápias defendia uma forma de milenarismo: a crença de que Cristo reinaria literalmente por mil anos na Terra após a ressurreição dos mortos. Essa visão foi influente nos primeiros séculos, porém mais tarde foi rejeitada por muitos teólogos.

4. Interpretação sobre os “irmãos de Jesus”


Embora os escritos de Pápias (século II) tenham se perdido em grande parte, fragmentos preservados por autores posteriores indicam que ele pode ter sustentado a ideia de que os chamados “irmãos de Jesus” não eram filhos biológicos de Maria, mãe de Jesus, mas sim filhos de outra Maria — possivelmente Maria de Cléofas, mencionada nos Evangelhos.
Nos Evangelhos, há menção a irmãos de Jesus, como Tiago, José, Simão e Judas (cf. Mt 13,55). Isso levou alguns a pensar que Maria teve outros filhos. No entanto:
  • Linguisticamente, nas línguas semíticas (hebraico e aramaico), não havia um termo específico para “primo”. A palavra “irmão” podia designar qualquer parente próximo.
  • Tradicionalmente, a Igreja Católica interpreta esses “irmãos” como primos ou parentes próximos, não filhos de Maria.

5. Ênfase na autoridade apostólica

Pápias buscava preservar os ensinamentos dos apóstolos e seus discípulos, mostrando grande respeito pela autoridade apostólica como base da fé cristã.

• Impacto dessas obras na doutrina e na prática cristã

Apesar das críticas de Eusébio, os escritos de Pápias influenciaram a formação da tradição oral e a compreensão da origem dos evangelhos. Seu testemunho é valioso para a doutrina católica sobre Maria e a autoridade apostólica. 

1.3. Influência na Literatura Cristã

• Pápias é um dos primeiros autores cristãos a tentar sistematizar os ensinamentos de Jesus com base em fontes orais. Sua obra é considerada um elo entre os apóstolos e os teólogos posteriores.

• Embora não tenha influenciado diretamente obras místicas, sua ênfase na tradição oral e no milenarismo ecoa em escritos patrísticos posteriores.

• Relação entre suas obras e a espiritualidade cristã: sua busca pela “palavra viva” dos apóstolos reflete uma espiritualidade centrada na fidelidade à tradição apostólica e na esperança escatológica.


1.4. Relevância para a Teologia Católica

• Principais conceitos teológicos desenvolvidos
    • Defesa da tradição oral como fonte legítima da fé.
    • Interpretação dos evangelhos como testemunhos apostólicos.
    • Visão escatológica do Reino de Deus.
    • Influência duradoura na teologia católica.
Seu testemunho sobre os evangelhos e sobre Maria é frequentemente citado em defesa da tradição apostólica e da virgindade perpétua de Maria.

Comparação com outros doutores da Igreja
Embora não seja considerado um Doutor da Igreja, Pápias é uma figura de transição entre os apóstolos e os grandes teólogos como Irineu, Justino Mártir e Orígenes.

1.5. Relação Entre os Demais Doutores

• Interações e influências mútuas: Pápias influenciou Irineu de Lião, que o cita como fonte confiável. Também compartilhou o contexto histórico com Policarpo e Inácio de Antioquia.

• Comparação de temas e abordagens teológicas: enquanto Policarpo enfatizava o martírio e a fidelidade, Pápias focava na preservação da tradição oral e na escatologia.

• Contribuições coletivas para a doutrina da Igreja

Juntos, esses Padres Apostólicos ajudaram a consolidar a autoridade apostólica, a tradição oral e a estrutura episcopal da Igreja. 

1.6. Outros Assuntos Relevantes

• Canonização e reconhecimento oficial pela Igreja

Pápias é venerado como santo pela Igreja Católica e Ortodoxa. Sua festa litúrgica é celebrada em 22 de fevereiro.

• Legado e celebrações litúrgicas em sua honra

Embora pouco conhecido popularmente, seu nome aparece em calendários litúrgicos e em obras patrísticas.

1.7. Críticas de Eusébio de Cesareia a Pápias

Embora Pápias seja uma figura respeitada entre os Padres Apostólicos, ele não escapou de críticas — especialmente por parte de Eusébio de Cesareia, o primeiro grande historiador da Igreja.

• Capacidade intelectual questionada

Eusébio descreve Pápias como um homem de “mente muito limitada”, sugerindo que suas interpretações das Escrituras e crenças teológicas eram simplistas ou ingênuas.

• Rejeição do milenarismo

Uma das principais críticas de Eusébio foi à crença de Pápias em um reino milenar literal de Cristo na Terra. Para Eusébio, essa doutrina era equivocada e perigosa, e ele responsabilizou Pápias por sua popularização entre os cristãos do século II.

• Confiabilidade das fontes

Eusébio também questionou a autoridade das fontes de Pápias, que se baseavam em tradições orais e testemunhos indiretos. Embora Pápias afirmasse ter ouvido os “presbíteros” que conviveram com os apóstolos, Eusébio via isso com ceticismo.

• Relatos lendários

Alguns relatos preservados por Pápias — como a morte de Judas ou histórias contadas pelas filhas do apóstolo Filipe — foram considerados por Eusébio como exagerados ou lendários, e não confiáveis do ponto de vista histórico.

Conclusão

Pápias de Hierápolis é uma figura essencial para compreender o início da tradição cristã. Seu esforço em preservar os ensinamentos dos apóstolos, mesmo que por meio da tradição oral, mostra o valor da memória viva da fé. Estudar sua vida e obra é mergulhar nas raízes da Igreja e reconhecer a importância dos primeiros guardiões da doutrina cristã.

Referências

1.      JERÔNIMO, São. De Viris Illustribus. Cap. 18.

2.      VERITATIS SPLENDOR. Biografia de Pápias de Hierápolis. Disponível em: https://www.veritatis.com.br/papias-de-hierapolis/

3.      CATHOLIC.NET. Papías de Hierápolis, Santo. Disponível em: https://es.catholic.net/op/articulos/56309/papas-de-hierpolis-santo.html

4.      MIGNE, Jacques Paul. Patrologia Graeca, vol. 5. Paris: Imprimerie Catholique, 1857.

5.      EUSÉBIO DE CESAREIA. História Eclesiástica, Livro III, cap. 39.












09 julho 2025

06 - Padres Apostólicos - Policarpo de Esmirna

Policarpo de Esmirna
Bispo de Esmirna entre o final do século I e meados do século II,
discípulo direto do apóstolo João e mártir da fé cristã,
 executado por se recusar a renegar Cristo, durante
a perseguição do Império Romano.

Mártirio de São Policarpo de Esmirna
Contexto histórico
Policarpo viveu entre os séculos I e II d.C., em um período de consolidação do cristianismo e perseguições romanas. Foi discípulo direto do apóstolo João, o que o conecta diretamente à geração apostólica. Isso lhe conferia grande autoridade doutrinal e espiritual. Viveu em Esmirna, na Ásia Menor (atual Turquia), uma cidade importante do Império Romano.
Dele temos escassas notícias, embora muito fidedignas; de sua infância, de sua formação, de sua família, ignoramos tudo. Informações sobre São Policarpo só a partir de sua atividade pastoral como bispo à frente da comunidade de Esmirna. Graças a alguns testemunhos, podemos reconstruir sua personalidade. Além da Carta aos filipenses, na qual revela toda sua alma, seu coração compassivo, sua compreensão para com os fracos, há, ainda, a narração de seu martírio.
Segundo Tertuliano, Policarpo teria sido ordenado bispo pelas mãos do próprio apóstolo João.

1 - Principais eventos e realizações
Policarpo é conhecido por sua firmeza na fé e por seu martírio heroico.

O martírio
O relato do seu martírio foi registrado na Carta da Igreja de Esmirna, um dos primeiros documentos cristãos sobre martírios. Aqui estão os principais momentos:

        Captura e julgamento:
  • Policarpo foi preso e levado ao estádio de Esmirna.
  • O procônsul tentou convencê-lo a renegar sua fé.
  • Policarpo respondeu ao procônsul: “Há 86 anos sirvo a Cristo e Ele nunca me fez mal. Como posso blasfemar contra meu Rei que me salvou?”
        Condenação e execução:
  • Foi condenado a ser queimado vivo.
  • Quando acenderam a fogueira, as chamas, segundo o relato, formaram como um arco ao redor de seu corpo, sem tocá-lo.
  • Diante disso, um soldado o matou com uma espada.
         Veneração:
  • Os cristãos recolheram seus ossos como relíquias e passaram a celebrar o dia de seu martírio como um aniversário espiritual.
1.1. Trajetória Dentro da Igreja
  • Foi bispo de Esmirna, nomeado possivelmente pelo próprio apóstolo João. Exerceu papel pastoral e doutrinal fundamental na Igreja primitiva.
Contribuições específicas para a Igreja
  • Defensor da ortodoxia cristã contra heresias como o gnosticismo e o marcionismo. Manteve viva a tradição apostólica e foi elo entre os apóstolos e os Padres da Igreja.
Participação em concílios e eventos
  • Participou de debates sobre a data da celebração da Páscoa (Controvérsia Quartodecimana), mantendo a tradição asiática, mas em comunhão com Roma.
1.2. Principais Obras

Obras importantes
  • São Irineu nos fala de algumas cartas escritas por Policarpo, e em determinado momento diz: “É lindíssima a carta de Policarpo aos de Felipos” (antiga cidade da Macedônia, localizada na atual Grécia).
  • Esta é a única obra autêntica preservada: Carta aos Filipenses, escrita em tom pastoral e exortativo.
Temas abordados e relevância teológica
  • Em estilo muito vivo, trata de uma exortação à fé, perseverança, humildade, caridade e vigilância contra heresias. Reforça a importância da tradição apostólica e da unidade eclesial.
  • Em algumas passagens lembra, quase de modo literal, a carta que São Clemente escreveu aos coríntios.
Impacto na doutrina e prática cristã
  • Sua carta é uma das primeiras evidências da sucessão apostólica e da autoridade episcopal, além de reforçar a importância da fidelidade à doutrina recebida dos apóstolos.
1.3. Contribuições para a literatura cristã
  • Policarpo é uma figura central na literatura patrística. Seu martírio é um dos mais bem documentados da Antiguidade, descrito na Carta da Igreja de Esmirna sobre o Martírio de São Policarpo.
  • Ele é um dos primeiros mártires fora da Palestina, e sua morte marca o início das perseguições romanas sistemáticas contra os cristãos.
Obras místicas influenciadas
Embora não tenha escrito obras místicas, sua vida e martírio inspiraram textos devocionais e hagiográficos posteriores:
  • Oração a São Policarpo
    • Diversas orações devocionais foram compostas em sua honra, como a que pede coragem e fidelidade diante das provações, inspirada em sua firmeza diante do martírio
  • Frases e Exortações Espirituais
    • Frases atribuídas a Policarpo tornaram-se máximas espirituais citadas em textos devocionais e sermões ao longo da história
  • Hinos e celebrações litúrgicas
    • A liturgia da Igreja celebra sua memória em 23 de fevereiro, com leituras e hinos próprios, especialmente nas Igrejas Católica e Ortodoxa, que exaltam sua fidelidade e coragem como modelo de santidade.
Esses textos não apenas preservam a memória de Policarpo, mas também alimentam a espiritualidade cristã, especialmente no que diz respeito ao testemunho da fé, à perseverança e à fidelidade à tradição apostólica.

1.4. Relevância para a Teologia Católica
Conceitos teológicos desenvolvidos
  • Sucessão apostólica
  • Unidade da Igreja
  • Fidelidade à tradição
  • Testemunho do martírio como expressão de fé
1.5. Relação Entre os Demais Doutores
Interações e influências mútuas
  • Foi discípulo de São João e mestre de Santo Irineu. Sua teologia influenciou diretamente a teologia patrística ocidental.
Comparação de temas e abordagens
  • Enquanto Inácio enfatizava a unidade eclesial e o martírio, Policarpo reforçava a fidelidade à tradição apostólica e a pureza doutrinal.
Contribuições coletivas
  • Junto com outros Padres Apostólicos, ajudou a formar a base doutrinária e pastoral da Igreja primitiva.
1.6. Outros Assuntos Relevantes 
  • O relato de seu martírio menciona que o fogo não o consumiu, sendo necessário o uso de uma adaga para matá-lo — interpretado como sinal de santidade.
A Controvérsia Quartodecimana
  • Foi um dos primeiros grandes debates litúrgicos da Igreja primitiva, centrado na data da celebração da Páscoa. O termo "quartodecimano" vem do latim quartus decimus, que significa "décimo quarto", referindo-se ao 14º dia do mês de Nisã no calendário judaico.
  • Contexto da controvérsia
    • Os cristãos da Ásia Menor, incluindo Policarpo de Esmirna, seguiam a tradição apostólica de celebrar a Páscoa no dia 14 de Nisã, independentemente do dia da semana. Essa prática estava ligada diretamente à data da Páscoa judaica, pois acreditavam que era o dia da morte de Cristo, o verdadeiro Cordeiro Pascal.
    • Já em Roma e no Ocidente, a prática era celebrar a Páscoa no domingo seguinte ao 14 de Nisã, para enfatizar a ressurreição de Cristo, que ocorreu no primeiro dia da semana.
  • O encontro entre Policarpo e o Papa Aniceto
    • Por volta do ano 155 d.C., Policarpo viajou a Roma e se encontrou com o Papa Aniceto para tentar resolver essa divergência. Embora não tenham chegado a um acordo, ambos mantiveram a comunhão eclesial, o que demonstra um espírito de unidade apesar das diferenças litúrgicas.
  • Desdobramentos 
    • A controvérsia continuou por mais de um século e culminou no Concílio de Niceia (325 d.C.), que estabeleceu que a Páscoa deveria ser celebrada no primeiro domingo após a primeira lua cheia da primavera (hemisfério norte), rompendo definitivamente com o calendário judaico.
  • Importância teológica e histórica
    • A controvérsia quartodecimana mostra como a Igreja primitiva buscava unidade na diversidade, equilibrando tradição apostólica e desenvolvimento litúrgico.
    • Também evidencia a autoridade crescente do bispo de Roma e o papel dos concílios na definição de práticas comuns.
Conclusão
São Policarpo de Esmirna representa uma ponte viva entre os apóstolos e a Igreja pós-apostólica. Sua vida, ensinamentos e martírio são testemunhos da fidelidade cristã, da autoridade episcopal e da importância da tradição. Estudar sua trajetória é essencial para compreender as raízes da teologia e espiritualidade católicas.

Referências 
AQUINO, Felipe. Os Santos que Abalaram o Mundo. Lorena: Editora Cléofas, 2015.
BENTO XVI. Os Padres da Igreja. São Paulo: Editora Paulus, 2008.
DANIÉLOU, Jean. Os Primeiros Séculos da Igreja. São Paulo: Loyola, 2000.
VATICANO. Martírio de São Policarpo. Disponível em: vatican.va. Acesso em: mai. 2025.
IRINEU DE LYON. Contra as Heresias. São Paulo: Paulus, 2011.
LLORCA, Bernardino, S.J. Nueva Visión de la História del Cristianismo. Madrid: Labor, 1956.
QUACQUERELLI, A., I Padri Apostolici, Roma, 1976, pp. 147-150
NAUTIN, P., Lettres et écrivains chrétiennes des IIe et IIIe siècles, Paris, 1961, pp. 36-39; 65-91.