Pápias
de Hierápolis
Bispo
de Hierápolis no início do século II,
discípulo
de João e contemporâneo de Policarpo de Esmirna,
um dos primeiros autores cristãos a registrar tradições orais
sobre os evangelhos e os apóstolos. Conhecido por sua obra
Explicação dos ditos do Senhor (λογίων κυριακῶν ἐξήγησις)
de grande valor histórico e teológico.
1. Contexto histórico em que viveu
Pápias
viveu entre o final do século I e meados do século II (c. 70–140 d.C.), em um
período de transição entre os apóstolos e os primeiros líderes da Igreja. Era
uma época marcada pela consolidação das comunidades cristãs, perseguições
esporádicas e o início da sistematização da doutrina cristã. Ele viveu na
cidade de Hierápolis, na Frígia (atual Pamukkale, Turquia), uma região
influenciada pela cultura greco-romana e pelo judaísmo helenizado.
•
Principais eventos e realizações em sua vida
Foi bispo
de Hierápolis e é considerado um dos Padres Apostólicos, ou seja, líderes
cristãos que tiveram contato direto com os apóstolos ou seus discípulos.
Segundo Irineu de Lião, Pápias foi discípulo de João, o Apóstolo,
embora Eusébio de Cesareia afirme que ele teria sido discípulo
de João, o Presbítero.
1.1. Trajetória Dentro da Igreja
• Pápias
exerceu o episcopado em Hierápolis, sendo uma figura de autoridade espiritual e
teológica em sua comunidade.
• Sua
principal contribuição foi a preservação de tradições orais sobre os
ensinamentos de Jesus e dos apóstolos, que ele considerava mais confiáveis do
que os escritos disponíveis na época.
1.2. Temas
abordados e sua relevância teológica
Sua única
obra conhecida é a “Explicação dos ditos do Senhor", escrita em cinco
volumes. Infelizmente, a obra completa se perdeu, restando apenas fragmentos
preservados por autores como Irineu e Eusébio.
1.
Valorização da Tradição Oral
Pápias
acreditava que os ensinamentos transmitidos oralmente pelos discípulos
dos apóstolos eram mais confiáveis do que os escritos. Ele buscava
ouvir diretamente os “anciãos” que haviam convivido com os apóstolos,
valorizando a “voz viva” da tradição.
“Não
hesitarei em registrar para ti, junto com as interpretações, tudo o que aprendi
cuidadosamente dos presbíteros e guardei cuidadosamente na memória.” (Fragmento citado por Eusébio).
2. Testemunhos sobre os Evangelhos
Pápias é uma das primeiras fontes a comentar sobre a origem dos evangelhos:
- Evangelho de Marcos: Segundo ele, Marcos foi intérprete de Pedro e escreveu com exatidão tudo o que lembrava, embora não em ordem cronológica.
- Evangelho de Mateus: Teria sido escrito “em língua hebraica” (ou aramaica), e cada um o interpretava como podia.
3. Crença no Milenarismo
Pápias defendia uma forma
de milenarismo: a crença de que Cristo reinaria literalmente por
mil anos na Terra após a ressurreição dos mortos. Essa visão foi influente nos
primeiros séculos, porém mais tarde foi rejeitada por muitos teólogos.
4. Interpretação sobre os
“irmãos de Jesus”
- Linguisticamente, nas línguas semíticas (hebraico e aramaico), não havia um termo específico para “primo”. A palavra “irmão” podia designar qualquer parente próximo.
- Tradicionalmente, a Igreja Católica interpreta esses “irmãos” como primos ou parentes próximos, não filhos de Maria.
5. Ênfase na autoridade apostólica
Pápias buscava preservar os
ensinamentos dos apóstolos e seus discípulos, mostrando grande respeito
pela autoridade apostólica como base da fé cristã.
• Impacto dessas obras na
doutrina e na prática cristã
Apesar das críticas de Eusébio, os escritos de Pápias influenciaram a formação da tradição oral e a compreensão da origem dos evangelhos. Seu testemunho é valioso para a doutrina católica sobre Maria e a autoridade apostólica.
1.3. Influência na Literatura
Cristã
• Pápias é um dos primeiros
autores cristãos a tentar sistematizar os ensinamentos de Jesus com base em
fontes orais. Sua obra é considerada um elo entre os apóstolos e os teólogos
posteriores.
• Embora não tenha influenciado diretamente obras místicas, sua ênfase na tradição oral e no milenarismo ecoa em escritos patrísticos posteriores.
• Relação entre suas obras e a espiritualidade cristã: sua busca pela “palavra viva” dos apóstolos reflete uma espiritualidade centrada na fidelidade à tradição apostólica e na esperança escatológica.
• Principais conceitos teológicos desenvolvidos
- Defesa da tradição oral como fonte legítima da fé.
- Interpretação dos evangelhos como testemunhos apostólicos.
- Visão escatológica do Reino de Deus.
- Influência duradoura na teologia católica.
• Comparação com outros doutores da Igreja
Embora não seja considerado um Doutor da Igreja, Pápias é uma figura de transição entre os apóstolos e os grandes teólogos como Irineu, Justino Mártir e Orígenes.
1.5. Relação Entre os Demais
Doutores
• Interações e influências mútuas: Pápias influenciou Irineu de Lião, que o cita como fonte confiável. Também compartilhou o contexto histórico com Policarpo e Inácio de Antioquia.
• Comparação de temas e abordagens teológicas: enquanto Policarpo enfatizava o martírio e a fidelidade, Pápias focava na preservação da tradição oral e na escatologia.
• Contribuições coletivas para a
doutrina da Igreja
Juntos, esses Padres Apostólicos ajudaram a consolidar a autoridade apostólica, a tradição oral e a estrutura episcopal da Igreja.
1.6. Outros Assuntos Relevantes
• Canonização e reconhecimento oficial pela Igreja
Pápias é venerado
como santo pela Igreja Católica e Ortodoxa. Sua festa litúrgica é
celebrada em 22 de fevereiro.
• Legado e celebrações
litúrgicas em sua honra
Embora pouco conhecido
popularmente, seu nome aparece em calendários litúrgicos e em obras
patrísticas.
1.7. Críticas de Eusébio de
Cesareia a Pápias
Embora Pápias seja uma figura
respeitada entre os Padres Apostólicos, ele não escapou de críticas —
especialmente por parte de Eusébio de Cesareia, o primeiro grande
historiador da Igreja.
• Capacidade intelectual
questionada
Eusébio descreve Pápias como um
homem de “mente muito limitada”, sugerindo que suas interpretações das
Escrituras e crenças teológicas eram simplistas ou ingênuas.
• Rejeição do milenarismo
Uma das principais críticas de
Eusébio foi à crença de Pápias em um reino milenar literal de Cristo na
Terra. Para Eusébio, essa doutrina era equivocada e perigosa, e ele
responsabilizou Pápias por sua popularização entre os cristãos do século II.
• Confiabilidade das fontes
Eusébio também questionou
a autoridade das fontes de Pápias, que se baseavam em tradições orais
e testemunhos indiretos. Embora Pápias afirmasse ter ouvido os “presbíteros”
que conviveram com os apóstolos, Eusébio via isso com ceticismo.
• Relatos lendários
Alguns relatos preservados por
Pápias — como a morte de Judas ou histórias contadas pelas filhas do apóstolo
Filipe — foram considerados por Eusébio como exagerados ou lendários, e
não confiáveis do ponto de vista histórico.
Conclusão
Pápias de Hierápolis é uma
figura essencial para compreender o início da tradição cristã. Seu esforço em
preservar os ensinamentos dos apóstolos, mesmo que por meio da tradição oral,
mostra o valor da memória viva da fé. Estudar sua vida e obra é mergulhar
nas raízes da Igreja e reconhecer a importância dos primeiros guardiões da
doutrina cristã.
Referências
1.
JERÔNIMO,
São. De
Viris Illustribus.
Cap. 18.
2.
VERITATIS
SPLENDOR. Biografia
de Pápias de Hierápolis.
Disponível em: https://www.veritatis.com.br/papias-de-hierapolis/
3. CATHOLIC.NET. Papías de Hierápolis, Santo. Disponível
em: https://es.catholic.net/op/articulos/56309/papas-de-hierpolis-santo.html
4. MIGNE, Jacques Paul. Patrologia Graeca, vol. 5. Paris: Imprimerie
Catholique, 1857.
5. EUSÉBIO DE CESAREIA. História Eclesiástica, Livro III, cap. 39.
