Policarpo de Esmirna
Bispo de Esmirna entre o final do século I e meados do século II,
discípulo direto do apóstolo João e mártir da fé cristã,
executado por se recusar a renegar Cristo, durante
a perseguição do Império Romano.
| Mártirio de São Policarpo de Esmirna |
Contexto histórico
Policarpo viveu entre os séculos I e II d.C., em um período de consolidação do cristianismo e perseguições romanas. Foi discípulo direto do apóstolo João, o que o conecta diretamente à geração apostólica. Isso lhe conferia grande autoridade doutrinal e espiritual. Viveu em Esmirna, na Ásia Menor (atual Turquia), uma cidade importante do Império Romano.
Dele temos escassas notícias, embora muito fidedignas; de sua infância, de sua formação, de sua família, ignoramos tudo. Informações sobre São Policarpo só a partir de sua atividade pastoral como bispo à frente da comunidade de Esmirna. Graças a alguns testemunhos, podemos reconstruir sua personalidade. Além da Carta aos filipenses, na qual revela toda sua alma, seu coração compassivo, sua compreensão para com os fracos, há, ainda, a narração de seu martírio.
Segundo Tertuliano, Policarpo teria sido ordenado bispo pelas mãos do próprio apóstolo João.
Policarpo é conhecido por sua firmeza na fé e por seu martírio heroico.
O martírio
O relato do seu martírio foi registrado na Carta da Igreja de Esmirna, um dos primeiros documentos cristãos sobre martírios. Aqui estão os principais momentos:
Captura e julgamento:
- Policarpo foi preso e levado ao estádio de Esmirna.
- O procônsul tentou convencê-lo a renegar sua fé.
- Policarpo respondeu ao procônsul: “Há 86 anos sirvo a Cristo e Ele nunca me fez mal. Como posso blasfemar contra meu Rei que me salvou?”
- Foi condenado a ser queimado vivo.
- Quando acenderam a fogueira, as chamas, segundo o relato, formaram como um arco ao redor de seu corpo, sem tocá-lo.
- Diante disso, um soldado o matou com uma espada.
- Os cristãos recolheram seus ossos como relíquias e passaram a celebrar o dia de seu martírio como um aniversário espiritual.
- Foi bispo de Esmirna, nomeado possivelmente pelo próprio apóstolo João. Exerceu papel pastoral e doutrinal fundamental na Igreja primitiva.
- Defensor da ortodoxia cristã contra heresias como o gnosticismo e o marcionismo. Manteve viva a tradição apostólica e foi elo entre os apóstolos e os Padres da Igreja.
- Participou de debates sobre a data da celebração da Páscoa (Controvérsia Quartodecimana), mantendo a tradição asiática, mas em comunhão com Roma.
Obras importantes
Embora não tenha escrito obras místicas, sua vida e martírio inspiraram textos devocionais e hagiográficos posteriores:
Referências
AQUINO, Felipe. Os Santos que Abalaram o Mundo. Lorena: Editora Cléofas, 2015.
BENTO XVI. Os Padres da Igreja. São Paulo: Editora Paulus, 2008.
DANIÉLOU, Jean. Os Primeiros Séculos da Igreja. São Paulo: Loyola, 2000.
VATICANO. Martírio de São Policarpo. Disponível em: vatican.va. Acesso em: mai. 2025.
IRINEU DE LYON. Contra as Heresias. São Paulo: Paulus, 2011.
LLORCA, Bernardino, S.J. Nueva Visión de la História del Cristianismo. Madrid: Labor, 1956.
QUACQUERELLI, A., I Padri Apostolici, Roma, 1976, pp. 147-150
NAUTIN, P., Lettres et écrivains chrétiennes des IIe et IIIe siècles, Paris, 1961, pp. 36-39; 65-91.
- São Irineu nos fala de algumas cartas escritas por Policarpo, e em determinado momento diz: “É lindíssima a carta de Policarpo aos de Felipos” (antiga cidade da Macedônia, localizada na atual Grécia).
- Esta é a única obra autêntica preservada: Carta aos Filipenses, escrita em tom pastoral e exortativo.
- Em estilo muito vivo, trata de uma exortação à fé, perseverança, humildade, caridade e vigilância contra heresias. Reforça a importância da tradição apostólica e da unidade eclesial.
- Em algumas passagens lembra, quase de modo literal, a carta que São Clemente escreveu aos coríntios.
- Sua carta é uma das primeiras evidências da sucessão apostólica e da autoridade episcopal, além de reforçar a importância da fidelidade à doutrina recebida dos apóstolos.
- Policarpo é uma figura central na literatura patrística. Seu martírio é um dos mais bem documentados da Antiguidade, descrito na Carta da Igreja de Esmirna sobre o Martírio de São Policarpo.
- Ele é um dos primeiros mártires fora da Palestina, e sua morte marca o início das perseguições romanas sistemáticas contra os cristãos.
Embora não tenha escrito obras místicas, sua vida e martírio inspiraram textos devocionais e hagiográficos posteriores:
- Oração a São Policarpo
- Diversas orações devocionais foram compostas em sua honra, como a que pede coragem e fidelidade diante das provações, inspirada em sua firmeza diante do martírio
- Frases e Exortações Espirituais
- Frases atribuídas a Policarpo tornaram-se máximas espirituais citadas em textos devocionais e sermões ao longo da história
- Hinos e celebrações litúrgicas
- A liturgia da Igreja celebra sua memória em 23 de fevereiro, com leituras e hinos próprios, especialmente nas Igrejas Católica e Ortodoxa, que exaltam sua fidelidade e coragem como modelo de santidade.
1.4. Relevância para a Teologia Católica
Conceitos teológicos desenvolvidos
Interações e influências mútuas
Conceitos teológicos desenvolvidos
- Sucessão apostólica
- Unidade da Igreja
- Fidelidade à tradição
- Testemunho do martírio como expressão de fé
Interações e influências mútuas
- Foi discípulo de São João e mestre de Santo Irineu. Sua teologia influenciou diretamente a teologia patrística ocidental.
- Enquanto Inácio enfatizava a unidade eclesial e o martírio, Policarpo reforçava a fidelidade à tradição apostólica e a pureza doutrinal.
- Junto com outros Padres Apostólicos, ajudou a formar a base doutrinária e pastoral da Igreja primitiva.
- O relato de seu martírio menciona que o fogo não o consumiu, sendo necessário o uso de uma adaga para matá-lo — interpretado como sinal de santidade.
- Foi um dos primeiros grandes debates litúrgicos da Igreja primitiva, centrado na data da celebração da Páscoa. O termo "quartodecimano" vem do latim quartus decimus, que significa "décimo quarto", referindo-se ao 14º dia do mês de Nisã no calendário judaico.
- Contexto da controvérsia
- Os cristãos da Ásia Menor, incluindo Policarpo de Esmirna, seguiam a tradição apostólica de celebrar a Páscoa no dia 14 de Nisã, independentemente do dia da semana. Essa prática estava ligada diretamente à data da Páscoa judaica, pois acreditavam que era o dia da morte de Cristo, o verdadeiro Cordeiro Pascal.
- Já em Roma e no Ocidente, a prática era celebrar a Páscoa no domingo seguinte ao 14 de Nisã, para enfatizar a ressurreição de Cristo, que ocorreu no primeiro dia da semana.
- O encontro entre Policarpo e o Papa Aniceto
- Por volta do ano 155 d.C., Policarpo viajou a Roma e se encontrou com o Papa Aniceto para tentar resolver essa divergência. Embora não tenham chegado a um acordo, ambos mantiveram a comunhão eclesial, o que demonstra um espírito de unidade apesar das diferenças litúrgicas.
- Desdobramentos
- A controvérsia continuou por mais de um século e culminou no Concílio de Niceia (325 d.C.), que estabeleceu que a Páscoa deveria ser celebrada no primeiro domingo após a primeira lua cheia da primavera (hemisfério norte), rompendo definitivamente com o calendário judaico.
- Importância teológica e histórica
- A controvérsia quartodecimana mostra como a Igreja primitiva buscava unidade na diversidade, equilibrando tradição apostólica e desenvolvimento litúrgico.
- Também evidencia a autoridade crescente do bispo de Roma e o papel dos concílios na definição de práticas comuns.
Conclusão
São Policarpo de Esmirna representa uma ponte viva entre os apóstolos e a Igreja pós-apostólica. Sua vida, ensinamentos e martírio são testemunhos da fidelidade cristã, da autoridade episcopal e da importância da tradição. Estudar sua trajetória é essencial para compreender as raízes da teologia e espiritualidade católicas.
AQUINO, Felipe. Os Santos que Abalaram o Mundo. Lorena: Editora Cléofas, 2015.
BENTO XVI. Os Padres da Igreja. São Paulo: Editora Paulus, 2008.
DANIÉLOU, Jean. Os Primeiros Séculos da Igreja. São Paulo: Loyola, 2000.
VATICANO. Martírio de São Policarpo. Disponível em: vatican.va. Acesso em: mai. 2025.
IRINEU DE LYON. Contra as Heresias. São Paulo: Paulus, 2011.
LLORCA, Bernardino, S.J. Nueva Visión de la História del Cristianismo. Madrid: Labor, 1956.
QUACQUERELLI, A., I Padri Apostolici, Roma, 1976, pp. 147-150
NAUTIN, P., Lettres et écrivains chrétiennes des IIe et IIIe siècles, Paris, 1961, pp. 36-39; 65-91.
Nenhum comentário:
Postar um comentário