09 julho 2025

06 - Padres Apostólicos - Policarpo de Esmirna

Policarpo de Esmirna
Bispo de Esmirna entre o final do século I e meados do século II,
discípulo direto do apóstolo João e mártir da fé cristã,
 executado por se recusar a renegar Cristo, durante
a perseguição do Império Romano.

Mártirio de São Policarpo de Esmirna
Contexto histórico
Policarpo viveu entre os séculos I e II d.C., em um período de consolidação do cristianismo e perseguições romanas. Foi discípulo direto do apóstolo João, o que o conecta diretamente à geração apostólica. Isso lhe conferia grande autoridade doutrinal e espiritual. Viveu em Esmirna, na Ásia Menor (atual Turquia), uma cidade importante do Império Romano.
Dele temos escassas notícias, embora muito fidedignas; de sua infância, de sua formação, de sua família, ignoramos tudo. Informações sobre São Policarpo só a partir de sua atividade pastoral como bispo à frente da comunidade de Esmirna. Graças a alguns testemunhos, podemos reconstruir sua personalidade. Além da Carta aos filipenses, na qual revela toda sua alma, seu coração compassivo, sua compreensão para com os fracos, há, ainda, a narração de seu martírio.
Segundo Tertuliano, Policarpo teria sido ordenado bispo pelas mãos do próprio apóstolo João.

1 - Principais eventos e realizações
Policarpo é conhecido por sua firmeza na fé e por seu martírio heroico.

O martírio
O relato do seu martírio foi registrado na Carta da Igreja de Esmirna, um dos primeiros documentos cristãos sobre martírios. Aqui estão os principais momentos:

        Captura e julgamento:
  • Policarpo foi preso e levado ao estádio de Esmirna.
  • O procônsul tentou convencê-lo a renegar sua fé.
  • Policarpo respondeu ao procônsul: “Há 86 anos sirvo a Cristo e Ele nunca me fez mal. Como posso blasfemar contra meu Rei que me salvou?”
        Condenação e execução:
  • Foi condenado a ser queimado vivo.
  • Quando acenderam a fogueira, as chamas, segundo o relato, formaram como um arco ao redor de seu corpo, sem tocá-lo.
  • Diante disso, um soldado o matou com uma espada.
         Veneração:
  • Os cristãos recolheram seus ossos como relíquias e passaram a celebrar o dia de seu martírio como um aniversário espiritual.
1.1. Trajetória Dentro da Igreja
  • Foi bispo de Esmirna, nomeado possivelmente pelo próprio apóstolo João. Exerceu papel pastoral e doutrinal fundamental na Igreja primitiva.
Contribuições específicas para a Igreja
  • Defensor da ortodoxia cristã contra heresias como o gnosticismo e o marcionismo. Manteve viva a tradição apostólica e foi elo entre os apóstolos e os Padres da Igreja.
Participação em concílios e eventos
  • Participou de debates sobre a data da celebração da Páscoa (Controvérsia Quartodecimana), mantendo a tradição asiática, mas em comunhão com Roma.
1.2. Principais Obras

Obras importantes
  • São Irineu nos fala de algumas cartas escritas por Policarpo, e em determinado momento diz: “É lindíssima a carta de Policarpo aos de Felipos” (antiga cidade da Macedônia, localizada na atual Grécia).
  • Esta é a única obra autêntica preservada: Carta aos Filipenses, escrita em tom pastoral e exortativo.
Temas abordados e relevância teológica
  • Em estilo muito vivo, trata de uma exortação à fé, perseverança, humildade, caridade e vigilância contra heresias. Reforça a importância da tradição apostólica e da unidade eclesial.
  • Em algumas passagens lembra, quase de modo literal, a carta que São Clemente escreveu aos coríntios.
Impacto na doutrina e prática cristã
  • Sua carta é uma das primeiras evidências da sucessão apostólica e da autoridade episcopal, além de reforçar a importância da fidelidade à doutrina recebida dos apóstolos.
1.3. Contribuições para a literatura cristã
  • Policarpo é uma figura central na literatura patrística. Seu martírio é um dos mais bem documentados da Antiguidade, descrito na Carta da Igreja de Esmirna sobre o Martírio de São Policarpo.
  • Ele é um dos primeiros mártires fora da Palestina, e sua morte marca o início das perseguições romanas sistemáticas contra os cristãos.
Obras místicas influenciadas
Embora não tenha escrito obras místicas, sua vida e martírio inspiraram textos devocionais e hagiográficos posteriores:
  • Oração a São Policarpo
    • Diversas orações devocionais foram compostas em sua honra, como a que pede coragem e fidelidade diante das provações, inspirada em sua firmeza diante do martírio
  • Frases e Exortações Espirituais
    • Frases atribuídas a Policarpo tornaram-se máximas espirituais citadas em textos devocionais e sermões ao longo da história
  • Hinos e celebrações litúrgicas
    • A liturgia da Igreja celebra sua memória em 23 de fevereiro, com leituras e hinos próprios, especialmente nas Igrejas Católica e Ortodoxa, que exaltam sua fidelidade e coragem como modelo de santidade.
Esses textos não apenas preservam a memória de Policarpo, mas também alimentam a espiritualidade cristã, especialmente no que diz respeito ao testemunho da fé, à perseverança e à fidelidade à tradição apostólica.

1.4. Relevância para a Teologia Católica
Conceitos teológicos desenvolvidos
  • Sucessão apostólica
  • Unidade da Igreja
  • Fidelidade à tradição
  • Testemunho do martírio como expressão de fé
1.5. Relação Entre os Demais Doutores
Interações e influências mútuas
  • Foi discípulo de São João e mestre de Santo Irineu. Sua teologia influenciou diretamente a teologia patrística ocidental.
Comparação de temas e abordagens
  • Enquanto Inácio enfatizava a unidade eclesial e o martírio, Policarpo reforçava a fidelidade à tradição apostólica e a pureza doutrinal.
Contribuições coletivas
  • Junto com outros Padres Apostólicos, ajudou a formar a base doutrinária e pastoral da Igreja primitiva.
1.6. Outros Assuntos Relevantes 
  • O relato de seu martírio menciona que o fogo não o consumiu, sendo necessário o uso de uma adaga para matá-lo — interpretado como sinal de santidade.
A Controvérsia Quartodecimana
  • Foi um dos primeiros grandes debates litúrgicos da Igreja primitiva, centrado na data da celebração da Páscoa. O termo "quartodecimano" vem do latim quartus decimus, que significa "décimo quarto", referindo-se ao 14º dia do mês de Nisã no calendário judaico.
  • Contexto da controvérsia
    • Os cristãos da Ásia Menor, incluindo Policarpo de Esmirna, seguiam a tradição apostólica de celebrar a Páscoa no dia 14 de Nisã, independentemente do dia da semana. Essa prática estava ligada diretamente à data da Páscoa judaica, pois acreditavam que era o dia da morte de Cristo, o verdadeiro Cordeiro Pascal.
    • Já em Roma e no Ocidente, a prática era celebrar a Páscoa no domingo seguinte ao 14 de Nisã, para enfatizar a ressurreição de Cristo, que ocorreu no primeiro dia da semana.
  • O encontro entre Policarpo e o Papa Aniceto
    • Por volta do ano 155 d.C., Policarpo viajou a Roma e se encontrou com o Papa Aniceto para tentar resolver essa divergência. Embora não tenham chegado a um acordo, ambos mantiveram a comunhão eclesial, o que demonstra um espírito de unidade apesar das diferenças litúrgicas.
  • Desdobramentos 
    • A controvérsia continuou por mais de um século e culminou no Concílio de Niceia (325 d.C.), que estabeleceu que a Páscoa deveria ser celebrada no primeiro domingo após a primeira lua cheia da primavera (hemisfério norte), rompendo definitivamente com o calendário judaico.
  • Importância teológica e histórica
    • A controvérsia quartodecimana mostra como a Igreja primitiva buscava unidade na diversidade, equilibrando tradição apostólica e desenvolvimento litúrgico.
    • Também evidencia a autoridade crescente do bispo de Roma e o papel dos concílios na definição de práticas comuns.
Conclusão
São Policarpo de Esmirna representa uma ponte viva entre os apóstolos e a Igreja pós-apostólica. Sua vida, ensinamentos e martírio são testemunhos da fidelidade cristã, da autoridade episcopal e da importância da tradição. Estudar sua trajetória é essencial para compreender as raízes da teologia e espiritualidade católicas.

Referências 
AQUINO, Felipe. Os Santos que Abalaram o Mundo. Lorena: Editora Cléofas, 2015.
BENTO XVI. Os Padres da Igreja. São Paulo: Editora Paulus, 2008.
DANIÉLOU, Jean. Os Primeiros Séculos da Igreja. São Paulo: Loyola, 2000.
VATICANO. Martírio de São Policarpo. Disponível em: vatican.va. Acesso em: mai. 2025.
IRINEU DE LYON. Contra as Heresias. São Paulo: Paulus, 2011.
LLORCA, Bernardino, S.J. Nueva Visión de la História del Cristianismo. Madrid: Labor, 1956.
QUACQUERELLI, A., I Padri Apostolici, Roma, 1976, pp. 147-150
NAUTIN, P., Lettres et écrivains chrétiennes des IIe et IIIe siècles, Paris, 1961, pp. 36-39; 65-91.



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