É um cristão de origem judaica, comerciante e agricultor,
que tinha sido vendido como escravo e levado a Roma. Liberto, alcançou certa
prosperidade.
Hermas viveu no século II d.C., em Roma, durante um período
de consolidação da fé cristã em meio a perseguições e debates doutrinários. A
Igreja ainda era uma comunidade em formação, marcada por forte influência
judaica e pela cultura greco-romana.
Ele é tradicionalmente identificado como irmão do Papa Pio
I, o que o situaria entre os anos 140 e 155 d.C.
Trajetória Dentro da Igreja
Não há registros de que Hermas tenha ocupado cargos eclesiásticos formais, como bispo ou presbítero. No entanto, sua obra revela profundo envolvimento com a vida da Igreja e com a formação espiritual dos fiéis.
Hermas contribuiu com uma visão pastoral e penitencial da fé cristã, enfatizando o arrependimento, a moralidade e a renovação espiritual. Sua obra foi amplamente lida e respeitada nos primeiros séculos.
Principais obras
Sua principal produção literária foi o "Pastor
de Hermas", uma das obras mais extensas e influentes do período dos
Padres Apostólicos.
Duas figuras celestes fizeram revelações a Hermas: uma mulher de idade avançada, venerável matrona (representação da Igreja) e um anjo em forma de pastor, que deveria guiar a cristandade em direção à bem-aventurança, por meio da penitência. O livro pertence ao gênero literário "apocalíptico leve", por conter visões e revelações, mas sem o tom catastrófico e simbologia intensa dos apocalipses apócrifos clássicos.
Temas de Sua Obra
Sua obra é uma exortação forte à penitência que utiliza muitas imagens misteriosas.
- Afirma a possibilidade de haver perdão dos pecados após o batismo, embora por tempo limitado. Esse ensinamento aparece de forma mais clara na Parábola 8 (ou Semelhança 8), onde o anjo da penitência explica a Hermas que: “Aos servos de Deus é concedido um só arrependimento.”
- Contradizendo muitos autores antigos, Hermas considera lícito um novo matrimônio depois da viuvez. Essa afirmação chama atenção, porque contrasta com a visão de muitos autores cristãos antigos. Vamos entender melhor o contexto: Na obra O Pastor, trata de temas morais e disciplinares, incluindo o casamento. Ele afirma que é lícito casar-se novamente após a morte do cônjuge, o que era uma posição relativamente liberal para a época. No entanto, também valoriza a continência e a fidelidade à memória do cônjuge falecido, mas não impõe isso como obrigação.
- A obra é dividida em três partes:
- Visões (Visiones)
- Objetivo: Chamar os cristãos à penitência e à fidelidade, usando imagens vívidas e alegóricas.
- Conteúdo: Hermas relata cinco visões que teve, nas quais recebe mensagens divinas por meio de figuras simbólicas, como uma mulher idosa e um anjo em forma de pastor.
- Temas principais:
- A necessidade de arrependimento e pureza de vida.
- A construção espiritual da Igreja.
- O juízo de Deus sobre os fiéis.
- A urgência da conversão.
- Mandamentos (Mandata)
- Objetivo: Oferecer uma espécie de “manual de conduta cristã”, com conselhos práticos e espirituais para o dia a dia dos fiéis.
- Conteúdo: São doze mandamentos ou preceitos morais transmitidos por um anjo (o “Pastor”), que orientam Hermas sobre como viver uma vida cristã autêntica.
- Doze Mandamentos do Pastor de Hermas
- Crer em Deus e temê-Lo
- Manter a simplicidade e a inocência
- Amar a verdade e rejeitar a mentira
- Guardar a pureza e evitar desejos impuros
- Praticar a paciência e a humildade
- Buscar a penitência sincera
- Evitar a dúvida e cultivar a fé firme
- Evitar a tristeza excessiva
- Orar com sinceridade e sem hipocrisia
- Guardar-se contra o espírito maligno
- Evitar os falsos profetas e líderes ambiciosos
- Praticar a caridade sem discriminação
- Parábolas (Similitudines)
- Objetivo: Ensinar por meio de símbolos e histórias, reforçando a mensagem de que a salvação exige esforço contínuo e fidelidade.
- Conteúdo: São dez parábolas ou alegorias que ilustram verdades espirituais por meio de imagens como árvores, vinhas, servos e construções.
- Temas principais:
- O crescimento espiritual da Igreja.
- O arrependimento como oportunidade única.
- A vigilância e a perseverança na fé.
- O juízo final e a recompensa dos justos.
Contribuições para a literatura cristã
Hermas é considerado um dos principais representantes da
literatura patrística primitiva. Sua obra é um dos primeiros exemplos de
literatura cristã mística e visionária.
A linguagem simbólica e as visões de Hermas influenciaram autores como Orígenes e Tertuliano, além de inspirar tradições monásticas e místicas posteriores.
Relação com a espiritualidade cristã
O "Pastor" apresenta uma espiritualidade centrada
na conversão contínua, na vigilância moral e na esperança escatológica, temas
que ressoam até hoje na espiritualidade cristã.
Relevância para a Teologia Católica
- Arrependimento
pós-batismal: Hermas defende que há uma segunda chance para os
batizados que pecam, desde que se arrependam sinceramente.
- Igreja
como mulher e noiva: Imagens simbólicas que antecipam temas marianos e
eclesiológicos.
- Embora
não canonizado como doutor da Igreja, Hermas influenciou a teologia moral
e a disciplina penitencial, especialmente nos séculos II a IV.
Comparação com outros doutores
Diferente de Irineu ou Agostinho, Hermas não sistematizou
doutrinas, mas sua abordagem pastoral e simbólica complementa a tradição
teológica da Igreja.
Comparação de temas
Enquanto outros Padres abordavam heresias ou defendiam a fé, Hermas focava na vida moral e na renovação espiritual do.
Junto com Clemente de Roma, Inácio de Antioquia e Policarpo, Hermas ajudou a moldar a identidade cristã primitiva.
Reconhecimento
- Hermas é venerado como santo em algumas tradições, com festa litúrgica em 9 de maio.
- Sua obra foi muito respeitada na Igreja primitiva, especialmente em Roma, e chegou a ser considerada quase canônica por alguns autores antigos, como Irineu.
- Continua sendo estudada em seminários e cursos de patrística. É um exemplo de fé vivida e transmitida por meio da literatura.
Códice Sinaítico (Codex Sinaiticus)
É um dos manuscritos bíblicos mais antigos e importantes já
descobertos. Ele é fundamental para os estudos bíblicos, patrísticos e da
história do cristianismo primitivo.
O que é o Códice Sinaítico?
O Códice Sinaítico é um manuscrito do século IV (c. 330–360
d.C.), escrito em grego koiné, contendo grande parte da Bíblia —
tanto o Antigo quanto o Novo Testamento — além de dois escritos cristãos não
canônicos: a Epístola de Barnabé e partes do Pastor de
Hermas
Onde foi encontrado?
Foi descoberto em 1844 por Constantin von
Tischendorf no Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai
(Egito). Em uma visita posterior, em 1859, ele encontrou a maior parte do
manuscrito, que estava guardada por monges e quase foi descartada como
lixo
Conteúdo do códice
- Antigo
Testamento: cerca de metade da Septuaginta (tradução grega do AT).
- Novo
Testamento completo: incluindo os quatro Evangelhos, Atos, Epístolas
Paulinas, Epístolas Católicas e Apocalipse.
- Textos
adicionais: Epístola de Barnabé e O Pastor de
Hermas.
Importância histórica e teológica
- É
uma das mais antigas cópias completas do Novo Testamento.
- Ajuda
a entender variações textuais e a formação do cânon
bíblico.
- É
uma fonte essencial para a crítica textual, comparando
manuscritos antigos para reconstruir o texto original da Bíblia.
- Mostra
que, no século IV, ainda havia livros considerados edificantes,
como O Pastor de Hermas, circulando junto com os textos
canônicos.
Onde está hoje?
O códice está dividido entre quatro instituições:
- Biblioteca
Britânica (Londres)
- Universidade
de Leipzig (Alemanha)
- Mosteiro
de Santa Catarina (Egito)
- Biblioteca
Nacional da Rússia (São Petersburgo)
Conclusão
Resumo das contribuições
Hermas foi um autor cristão do século II cuja obra, o
"Pastor de Hermas", oferece uma visão profunda da espiritualidade e
da moral cristã primitiva. Sua ênfase no arrependimento e na renovação
espiritual continua relevante.
Estudar Hermas é mergulhar nas raízes da fé cristã, onde a
simplicidade da vida cotidiana se encontra com a profundidade da experiência
espiritual.
Referências (Normas ABNT)
- QUASTEN,
Johannes. Patrologia: até o Concílio de Niceia. Vol. I.
Madrid: BAC, 2004.
- HERMAS. O
Pastor. Madrid: Editorial Ciudad Nueva, 1995.
- SIMONETTI, Manlio; PRINZIVALLI,
Emanuela. Storia della letteratura cristiana antica. Bologna:
EDB, 2011.
- BROWN,
Raymond E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas,
2004.
- DANIÉLOU,
Jean. Os primeiros séculos da Igreja. São Paulo: Loyola, 2000.

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