Santo Agostinho
A obra original é do século XIX, com autor desconhecido
Tão grande é a glória que Santo Agostinho adquiriu pela sua conversão, santidade de vida e pelos seus escritos, que mais de 150 Congressões religiosas quiseram ter a honra de se abrigar sob sua bandeira e que o reconhecem como fundador e pai.
Santo Agostinho nasceu no dia 13 de novembro em 354 d.C., em Tagaste, na Numídia (atual Argélia), sob domínio do Império Romano. A região era marcada por forte influência romana e por tensões religiosas entre o paganismo e o cristianismo nascente.
Seu pai, Patrício, era funcionário público e gozava de estima geral, pois era homem correto e leal. Sua mãe, Mônica, santa mulher, procurou dar a Agostinho uma educação correspondente à sua fé religiosa. Agostinho, porém seguiu caminhos muito diferentes dos preconizados por Mônica.
Aos 16 anos, em Cartago, onde estudava, entregou-se aos prazeres considerados pecaminosos. Foi a época mais triste de sua vida. Lá teve um filho. Deu-lhe o nome de Adeodato.
Filiou-se à seita dos maniqueus.*
* A seita dos maniqueus foi fundada por Mani (ou Manés), um profeta persa do século III d.C., e deu origem ao maniqueísmo, uma doutrina religiosa sincrética que combinava elementos do cristianismo, zoroastrismo e budismo.
Características principais do maniqueísmo:
- Dualismo radical: acreditava-se na existência de duas forças eternas e opostas — o Bem (Luz) e o Mal (Trevas) — em constante conflito.
- Cosmologia complexa: o mundo material era visto como criação das trevas, enquanto o espírito pertencia à luz.
- Ascetismo: os seguidores buscavam libertar a alma da matéria por meio de práticas rigorosas, como jejum e celibato.
- Dois níveis de fiéis:
- Eleitos: viviam em ascetismo total.
- Ouvintes: seguiam parcialmente os preceitos e apoiavam os eleitos.
Influência e perseguição
- O maniqueísmo se espalhou por diversas regiões, do Império Romano à China.
- Foi considerado herético pelas autoridades cristãs e islâmicas.
- Santo Agostinho foi maniqueu por cerca de 9 anos antes de se converter ao cristianismo, e depois combateu fortemente essa doutrina.
A educação clássica era valorizada, e Agostinho foi profundamente influenciado por autores latinos e pela filosofia greco-romana.
• Principais eventos e realizações
- Estudou retórica em Cartago e tornou-se professor em Roma e Milão.
- Viveu uma juventude inquieta, marcada por busca intelectual e moral.
- Em Milão conheceu o Bispo Ambrósio que o recebeu com muita cordialidade.
- Seu amigo Ponticiano lhe contou a história de Santo Antão. Ele ficou profundamente comovido.
- Converteu-se ao cristianismo em 386, após ouvir a frase “toma e lê” e abrir a Bíblia. Eram as epístolas de São Paulo.
- Foi batizado por Santo Ambrósio em 387, junto com seu filho Adeodato.
- Em Hipona, o Bispo Valério, reconhecendo os talentos e virtudes de Agostinho, ordena-o sacerdote.
- Fundou um mosteiro em Tagaste e depois em Hipona. (Cônegos regulares e Agostinianos, também chamados de Eremitas de Santo Agostinho)
- É o fundador e organizador da vida monástica.
- Foi ordenado sacerdote em 391 e bispo em 395.
• Outros fatos relevantes
- Escreveu mais de 100 obras, incluindo tratados, sermões e cartas.
- Morreu aos 76 anos, em Hipona, no dia 28 de agosto de 430, durante o cerco de Hipona pelos vândalos.
- Foi canonizado por aclamação popular* e declarado Doutor da Igreja em 1292.
Nos primeiros séculos do Cristianismo, não havia um processo formal de canonização como existe hoje. Os mártires e pessoas consideradas santas eram reconhecidos como tais pela comunidade cristã local, muitas vezes com o apoio de bispos. Esse reconhecimento espontâneo é o que se chama de canonização por aclamação popular.
Exemplos clássicos incluem:
- Santos mártires dos primeiros séculos, como Santo Estêvão ou Santa Inês.
- Santos locais, venerados por suas virtudes ou milagres, antes da centralização do processo em Roma.
Evolução do processo de canonização
A partir do século X, e especialmente com o Papa Alexandre III no século XII, a Igreja passou a centralizar e formalizar o processo de canonização, exigindo:
- Investigação da vida e virtudes do candidato.
- Prova de milagres atribuídos à intercessão do candidato.
- Aprovação final pelo Papa.
Desde então, a aclamação popular não é suficiente por si só para canonizar alguém, embora possa iniciar o processo. A devoção popular pode ser um sinal importante de santidade, mas precisa ser confirmada por critérios teológicos e canônicos.
Casos influenciados pela aclamação popular
Alguns santos recentes tiveram forte apoio popular que impulsionou sua canonização:
- São João Paulo II: o clamor de “Santo subito!” (santo já!) durante seu funeral teve grande impacto.
Santa Dulce dos Pobres (1914–1992)
- Conhecida como “o anjo bom da Bahia”.
- A devoção popular à sua obra com os pobres e doentes foi tão intensa que seu processo de canonização foi rápido.
- Canonizada em 2019 pelo Papa Francisco.
- São Frei Galvão (1739–1822)
- Primeiro santo brasileiro oficialmente canonizado (2007).
- Famoso pelas “pílulas de Frei Galvão”, associadas a curas milagrosas.
- A devoção popular manteve viva sua memória por séculos.
- São José de Anchieta (1534–1597)
- Missionário jesuíta espanhol que atuou no Brasil colonial.
- Considerado um dos fundadores da cidade de São Paulo.
- Beatificado em 1980 e canonizado em 2014, com forte apoio da devoção popular.
- Beato Padre Victor (1827–1905)
- Primeiro sacerdote negro do Brasil.
- Muito venerado em Três Pontas (MG), onde atuou.
- Beatificado em 2015, após longa devoção popular.
- Beata Nhá Chica (Francisca de Paula de Jesus, 1810–1895)
- Leiga negra e pobre, conhecida por sua fé e caridade.
- Venerada há mais de um século em Baependi (MG).
- Beatificada em 2013, com base em milagre reconhecido e aclamação popular.
• Cargos e funções desempenhadas
- Sacerdote e depois bispo de Hipona.
- Fundador de comunidades monásticas masculinas e femininas.
- Administrador e juiz eclesiástico, pregador e teólogo.
• Contribuições específicas para a Igreja
- Combateu heresias como o maniqueísmo, donatismo e pelagianismo.
- Desenvolveu a doutrina da graça, da Igreja como corpo místico e da predestinação.
- Elaborou a Regra de Vida que influenciou a Ordem Agostiniana.
• Participação em concílios e eventos
- Participou de concílios regionais e debates teológicos.
- Suas ideias influenciaram decisões doutrinárias da Igreja.
1.2. Principais Obras
• Resumo das obras mais importantes
- Confissões: autobiografia espiritual e filosófica.
- A Cidade de Deus: teologia da história e defesa do cristianismo.
- Sobre a Trindade: reflexão sobre o mistério da Santíssima Trindade.
- Sobre o Livre Arbítrio: análise da liberdade humana e do mal.
• Temas abordados
- Graça divina, pecado original, livre-arbítrio, tempo, alma, fé e razão.
- A relação entre cidade terrena e cidade celestial.
- A busca interior como caminho para Deus.
• Impacto na doutrina cristã
- Fundamentou dogmas sobre a graça e a salvação.
- Influenciou profundamente a teologia ocidental e a filosofia medieval.
1.3. Influência na Literatura Cristã
• Contribuições para a literatura cristã
- Criou o gênero da autobiografia espiritual.
- Seus escritos são considerados clássicos da literatura cristã e ocidental.
• Obras místicas influenciadas
- Inspirou autores como São Bernardo, Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz.
- Sua espiritualidade interior influenciou a mística cristã medieval.
• Relação com a espiritualidade cristã
- Enfatizou a busca interior, a oração e a caridade como caminhos para Deus.
- Sua espiritualidade é vivida até hoje na Ordem Agostiniana.
1.4. Relevância para a Teologia Católica
• Principais conceitos teológicos
- Pecado original, graça, predestinação, livre-arbítrio, Trindade.
- A fé como caminho para a compreensão da verdade.
• Influência duradoura
- Base da teologia patrística e medieval.
- Influenciou São Jerônimo, Santo Ambrósio e São Gregório Magno.
- Suas ideias foram retomadas e desenvolvidas por Tomás de Aquino.
• Comparação com outros doutores da Igreja
- Agostinho priorizava a fé; Tomás de Aquino priorizava a razão.
- Ambos são pilares da teologia cristã, com abordagens complementares.
1.5. Relação Entre os Demais Doutores
• Comparação de temas e abordagens
- Agostinho: introspecção, graça, pecado.
- Outros doutores: razão, escolástica, sacramentos.
• Contribuições coletivas
- Estabelecimento da doutrina cristã nos primeiros séculos.
- Formação da base teológica da Igreja Católica.
1.6. Outros Assuntos Relevantes
• Milagres atribuídos
- Cura de um doente durante o cerco de Hipona.
- Milagres relatados na “Legenda Áurea”, mas não amplamente reconhecidos pela Igreja.
• Canonização e reconhecimento
- Canonizado por aclamação popular.
- Declarado Doutor da Igreja em 1292 pelo Papa Bonifácio VIII.
• Legado e celebrações litúrgicas
- Festa litúrgica: 28 de agosto.
- Patrono dos teólogos, agostinianos e impressores.
Conclusão
Santo Agostinho é uma das figuras mais influentes da história da Igreja. Sua vida, marcada por busca, conversão e dedicação, inspira milhões até hoje. Suas obras moldaram a teologia cristã e a filosofia ocidental, e sua espiritualidade continua viva na tradição agostiniana. Estudar Santo Agostinho é mergulhar na origem da fé cristã e compreender a profundidade da alma humana diante de Deus.
Grandes são os tesouros espirituais que Agostinho deixou à Igreja, nos seus livros de grande valor.
Por especial providência, aconteceu que no grande incêncio que os Vândalos causaram na tomada de Hipona, fossem poupadas a igreja e a biblioteca do grande Bispo.
Referências (Normas ABNT)
- AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Paulus, 1995. (Coleção Patrística, v. 8).
- AGOSTINHO, Santo. A Graça. São Paulo: Paulus, 1999. (Coleção Patrística, v. 12 e 13).
- BROWN, Peter. Santo Agostinho: uma biografia. Rio de Janeiro: Record, 2023.
- PAPINI, Giovanni. Santo Agostinho. Rio Grande do Sul: Minha Biblioteca Católica, 2023.
- TONNA-BARTHET, Antonino. Síntese da Espiritualidade Agostiniana. São Paulo: Paulus, 1995. [363s-textu...- PUC-Rio]


